domingo, 11 de abril de 2021

SENTIMENTO DE CULPA = SENTIMENTO DE DÍVIDA

 


“Não sei porque eu visito minha mãe, o Alzheimer nem deixa ela perceber que eu estou lá...”

“Você não sabe, mas eu sei: para não se sentir em falta com o seu dever de filho; para não ter culpa, depois”.

A conversa com o cliente remete a “dever”, “dívida moral”, “estar em falta” e “sentir culpa”. São temas interligados, praticamente sinônimos.

Na mecânica do sentimento de culpa, há padrões morais estabelecidos pelo Superego: ou você está à altura deles (missão quase impossível, pois eles são sempre altíssimos), ou você está “em falta”, “abaixo”, “devedor”. Ou, em termos mais contemporâneos, “inadimplente”.

Como para o Superego ou você é modelo, ou é antimodelo; ou é certo, ou é errado, pois o Superego – sobretudo dos obsessivos – não admite meio termo, estar devendo a ele significa ser uma coisa muito feia, um “filho ingrato e desnaturado”, daí pra pior...

Se eu sou esse monstro e ainda por cima estou em falta, sinto... culpa.

O ditado “quem não deve não teme” não existe à toa, portanto. Sim, tememos: o credor, o banco, o processo automático da prefeitura que nos tomará a casa por inadimplência dos impostos, a Receita Federal... 

E tememos a esse credor-mor, o Superego, por todas as nossas dívidas morais. Ele usará o sentimento de culpa como pressão (e que pressão!).

O que nos deixa três alternativas: 
a) ou sabemos que nossas dívidas estão quitadas, que não somos inadimplentes em nada, nem financeira nem moralmente (solução quase utópica, no que diz respeito ao segundo quesito).

b) ou, por cansaço de nos sentirmos culpados, tocamos um foda-se e transgredimos (solução que tem problemas, pois a cobrança se mantém voltando, o que exige mais e mais tocar o foda-se).

c) ou, e esta é a minha solução preferida, examinamos e discutimos a tirania do Superego, de modo a que nossos valores éticos não estejam lá, e sim sejam nossos (do Ego), o que torna viável atendê-los.

 Quanto às dívidas de grana, quitamos as legítimas e entramos na justiça contra as outras.

Uma vez me perguntaram como seria a mais curta síntese para definir psicanálise e saúde mental. 

Respondi: “Deveu? Fodeu!”



 
 A CRIAÇÃO ORIGINAL - A TEORIA DA MENTE SEGUNDO FREUD




segunda-feira, 5 de abril de 2021

O SUPEREGO E O QUEIJO

 


Ele abriu com a faca seu enorme parmesão, cheio de orgulho.

O amigo olhou em silêncio por um tempo e finalmente comentou, apontando: “tem um buraco aqui!”

Nos primeiros anos da minha carreira, resolvi dar uma melhorada na sala de espera do consultório. Tirei da estante lindos cofee table art books – carentes há muito de contemplação – e os espalhei na mesinha.
Quando o cliente seguinte, um designer gráfico, entrou, fez um único comentário: “seus livros estão meio empoeirados”.

Contei-lhe então a história do buraco do queijo e ele ficou muito culpado, envergonhado de si mesmo.

Passaram-se alguns anos até que eu entendesse que não tinha feito psicanálise ali; tinha só me vingado.

Minha observação acabava sendo um reforço para o Superego do cliente. Que, se ele era fodão e crítico com os outros, sua primeira vítima era ele mesmo. 

A história poderia ter servido para eu entender como ele vinha sofrendo com seus padrões estéticos super exigentes, quase paralisantes, que o deixavam com a sensação de que tudo que produzia estava abaixo da crítica (de sua própria crítica, para começar), de que era uma fraude a ser denunciada, se o observador fosse fodão o bastante. Que sua doença obsessiva descambava para um sadomasoquismo cuja primeira – mas não única – vítima era ele mesmo.

Afinal, o que tinha feito eu, senão repetir com ele a história? Ao apontar nele o buraco do queijo?

É assim que também se aprende clínica: errando.



 
 A CRIAÇÃO ORIGINAL - A TEORIA DA MENTE SEGUNDO FREUD




PSICANÁLISE E VALORES - O AMIGO PERGUNTA

 


“Para você, a psicanálise defende valores?”

Francisco Daudt: Sem dúvida. Se a psicanálise reconhece que há doenças, ela defende a saúde psíquica. Ela precisa ter clara essa meta, do que é e de como se constrói a saúde psíquica: no conhecimento dos próprios desejos e na capacidade de implementá-los.

Isso implica independência e autonomia, consciência do que te manipula, construção do indivíduo que você é, através do descarte do que te invade (desejo claramente iluminista) e o cultivo de uma ética (não causar danos, nesse processo).

Ampliação da consciência implica valorização do verdadeiro sobre o falso. Eliminação da tirania mental (não haver um Eu submetido ao maltrato do Superego nem joguete do Id) por valorização da prática parlamentar entre os poderes mentais, como uma democracia interna.

A ética precisa ser soberana nesse processo, pois se houver dano, haverá tirania. E aqui declaro minha ética preferida: a Utilitarista, de John Stuart Mill.

De maneira muito resumida, ela diz: “A felicidade de todos me interessa, pois suas infelicidades atrapalham a minha felicidade”. 



 
 A CRIAÇÃO ORIGINAL - A TEORIA DA MENTE SEGUNDO FREUD




OFERECER A OUTRA FACE: UMA INVERTIDA SUTIL


“Ao que te bate numa face, oferece-lhe também a outra” (Lucas, 6; 27).

Mas... e o que levou ao primeiro tapa? Esta pergunta é ícone da maior censura de pensamento da atualidade. O senso comum diz que, se a pessoa se apresenta como vítima, a ela toda indenização INQUESTIONÁVEL é devida. Ela tem indulgência plenária; o simples pensar que ela pode ter erros já é visto como um insulto imperdoável.

Está certo que nossas mães sempre disseram, “Você até tinha razão, mas quando bateu no seu irmãozinho, perdeu a razão”. Qualquer violência não praticada pelo Estado (que detém o monopólio da força, para o impor o cumprimento das leis) é crime.

Está certo também que a humanidade vem buscando meios de implementar a ética e a cooperação num animal tão selvagem e predador quanto o sapiens. E que cultivar o sentimento de culpa foi um desses meios (incrível como ele prosperou na cultura judaico-cristã!).

Mas o sentimento de culpa acaba sendo injusto, pois não contempla a outra parte, a do irmãozinho irado e agressor. Não há atenuantes nem advogado de defesa para ele: a vítima tem, não apenas razão, mas toda a razão.

Será?




 
 A CRIAÇÃO ORIGINAL - A TEORIA DA MENTE SEGUNDO FREUD



 

A COISA E O APARELHO LEITOR



“Como um burro olhando para um palácio”.

Ele verá um amontoado de pedras.

Sempre me encantei com a expressão, pois ela fala da coisa e do aparelho leitor de forma caricatural. Tenho um xodó por caricaturas e sua comunicação rápida de um conceito: ali estão exagerados a complexidade da construção – ameias, seteiras, pontes levadiças, poder e glória – bem como o simplorismo do burro, incapaz de absorver as nuances e mensagens que a arquitetura contém.

Na psicanálise, é fundamental entender tanto a coisa quanto o aparelho leitor: o que leva um fóbico a ver numa barata tamanha ameaça? Por que um depressivo imagina essa catadupa de catástrofes e tem uma visão tão cruel de si? Algo alterou o aparelho leitor deles, uma lente destorcida se lhes interpôs.

Especialmente na depressão, o aparelho leitor sofre distorção de hardware. É impressionante o que fazem os antidepressivos modernos na correção da química cerebral. Depois de uma semana, o cliente passa a ver as coisas “com outros olhos”.

É a hora de a psicanálise poder trabalhar a parte software do aparelho leitor: que viés histórico transfere àquela pessoa tantas qualidades maravilhosas, quando se está apaixonado? De onde vem tanta crueldade de autoavaliação? Nos dois casos, vamos aprender sobre o Superego do cliente, aquele que distorce para melhor na idealização, e distorce para pior no julgamento.

Um olho na coisa; outro olho no olho, no aparelho leitor.

Eis porque o psicanalista tem que se olhar permanentemente: seu aparelho leitor não pode estar distorcido, para que ele possa ver bem seus clientes.




 
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CAMINHOS DO DESEJO - O AMIGO PERGUNTA

 


CAMINHOS DO DESEJO

“Você disse que o desejo sexual se desperta de maneira diferente em homens e mulheres? Como assim?”

Francisco Daudt: A testosterona é o hormônio do desejo, com uma particularidade curiosa: quanto mais testosterona, mais tesão visual.

Como os homens têm níveis altos de testosterona, seu tesão é principalmente visual. Eles valorizarão saúde e fertilidade, outros dos componentes naturais que nos levam à reprodução impensada. Truques da mãe natureza. Os sinais físicos desses atributos são boa simetria facial, juventude (ausência de flacidez e de cabelos grisalhos), distribuição de gordura (mamas e quadris cheios) e mucosas coradas (sem anemia).

Resulta que as mulheres tendem a se enfeitar com aquilo que lhes realce (ou simule) a juventude e a saúde: pintam os cabelos, as maquiagens são em tons de vermelho, fazem plásticas (silicones e eliminação de rugas), usam sutiãs (do francês “soutiens”, significa “que sustenta”, que não deixa os seios caírem).

Já nas mulheres, o desejo tem outro caminho: uma mulher detectará um homem “interessante”. Se esse homem a olhar com desejo, aí sim, o tesão por ele aparecerá.

O curioso é que esse “interessante” não segue os mesmos critérios masculinos: ele se refere a subjetividades como postura, segurança, firmeza, decisão, “solidez”.

Mas então as mulheres não têm tesão visual? Sim, 10% das mulheres têm altos níveis de testosterona; essas terão um desejo muito parecido com o masculino.

Apresentei esses conceitos numa palestra na Light, para cem mulheres e vinte homens. Algumas mulheres protestaram, que eu estava sendo machista, que elas tinham sim tesão visual.

Propus então um teste imaginário: “pensem em duas fotos. A primeira é de um garotão de uns vinte anos, muito bonito, sem roupa e contra um fundo neutro. A segunda é de um homem nos seus 40 anos, de terno Armani, têmporas grisalhas, saindo do banco de trás de uma Mercedes. Quem é o mais atraente?”

O grupo que preferiu o garotão tinha dez mulheres; o do terno Armani, 90.

“Agora os homens: a primeira foto é de uma mulher de vinte anos, muito bonita, nua contra um fundo neutro. A segunda, de uma de 40 anos, igualmente bonita, num tailleur Chanel, saindo do banco de trás de uma Mercedes”.

Houve unanimidade. Isso é a mãe natureza...



 
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segunda-feira, 29 de março de 2021

PORNOGRAFIA: USO OU VÍCIO? - O amigo pergunta

 


Adrilles Jorge: “A pornografia pode ter um efeito benéfico para a saúde sexual? Em que ponto se torna vício?”

Francisco Daudt: Estabelecido que o vício é o ato compulsivo que prejudica nossos maiores interesses, posso dizer que, em 46 anos de clínica, só diagnostiquei dois casos de vício em masturbação, um deles acompanhado de maconha, o que atrapalha o diagnóstico preciso. Perdiam emprego, deterioravam sua casa e seu meio social por causa do vício, donde... era vício mesmo.

Claro, falo em masturbação porque ela é o principal objetivo da pornografia. Nunca ouvi falar de alguém viciado apenas nela, excluída sua inspiração auto-erótica.

Portanto, para se entender o valor da pornografia, é preciso avaliar a importância e a função que a masturbação tem.

A reprodução dos mamíferos está completamente atrelada à busca de prazer. O prazer sexual foi o truque que a mãe natureza arranjou para que replicássemos o DNA. 

Agora vem a parte da natureza injusta: principalmente o prazer sexual masculino. A testosterona é a imperatriz do tesão; sem ela, pode esquecer. 

A partir dos 12-14 anos, o menino será inundado por testosterona, se excitará por estímulos mínimos e se masturbará. Todos – sim, todos – os homens já se masturbaram e/ou se masturbam regularmente. Isso estabelece neles o circuito neuronal do orgasmo – e agora vem mais injustiça da natureza – do qual depende a continuação da espécie.

O principal estímulo para excitação/masturbação/sexo/orgasmo masculinos é visual. Através daquilo que atrai a visão de um homem, podemos desenhar a conformação de seu desejo (homo, hétero, que formas, que circunstâncias etc.).

É aí que entra a pornografia. Estive num programa do Pedro Bial discutindo com mulheres que pretendiam fazer pornografia educativa, para que o machismo grosseiro pornográfico habitual não corrompesse o comportamento deles face às mulheres.

Tive que explicar que não existe, nem existirá, pornografia educativa. Só existe pornografia que dá tesão e a que não dá tesão. Ponto.

Para a psicanálise, a pornografia é preciosa ferramenta de conhecimento do desejo. Eis porque defendo a pornografia gourmet: menos aeróbica, mais complexidade; menos homem da pizza, mais dramatização. 

Isso me permite entender o que toca/excita os desejos dos clientes. Uma das principais funções da psicanálise é entender seus desejos, aqueles mais descontaminados da doença, menos invadidos pela briga dos Titãs internos, com menos Superego, com mais Ego.

Aliás, nem preciso defender essa complexidade da pornografia: a mão invisível do mercado (sem intenções humorísticas) dá conta disso. Com o barateamento digital das produções, o cardápio pornográfico na internet é imenso, permite uma seleção de pratos principais tal, que o cliente já chega sabendo bem o que lhe apetece.

Então, sim, a pornografia tem um papel muito interessante na saúde sexual. E podemos definir saúde sexual como aquela que se conquista fora da guerra da neurose, dos vícios e das perversões. Aquela com que a pessoa se sente em paz.



 
 A CRIAÇÃO ORIGINAL - A TEORIA DA MENTE SEGUNDO FREUD